quinta-feira, 19 de abril de 2012

Media indonésia e australiana analisam Taur Matan Ruak através do seu passado militar

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Lisboa, 18 abr (Lusa) -- Os media dos dois principais vizinhos de Timor-Leste, Austrália e Indonésia, identificam o vencedor das eleições presidenciais de segunda-feira em Timor-Leste, Taur Matan Ruak, como um comandante da guerrilha ou um suspeito de crimes de guerra.

As principais páginas na Internet indonésias e australianas revelam pouca atenção ao assunto das eleições presidenciais em Timor-Leste. Nas que dedicam artigos ao acontecimento, frisa-se que os resultados ainda não são oficiais e recorda-se o passado de Taur Matan Ruak, apontado como vencedor.

No jornal australiano Sidney Morning Herald, Michael Bachelard escrevia na terça-feira que aquele que será, "quase de certeza, o próximo Presidente de Timor-Leste", chegou a ser "recomendado para acusação judicial pelas Nações Unidas".

O jornalista recorda que a história do ex-guerrilheiro é "controversa". Em 2006, após um na morte de 38 pessoas e na deslocação forçada de conflito armado que opôs fações do exército e forças policiais, que resultou outras 150 mil, as Nações Unidas abriram um inquérito que recomendava a acusação de Taur Matan Ruak por distribuição de armas a civis. Tal não chegou a acontecer, porque aquele disse ter obedecido a ordens do ministro da Defesa.

Ruak "foi um candidato muito popular, devido ao seu percurso militar, num país que valoriza muito os heróis do passado", embora, de acordo com os dados eleitorais provisórios, a participação dos timorenses tenha sido "desapontadamente baixa".

Michael Bachelard lembra que Ruak, o último comandante militar da resistência timorense e o primeiro comandante das forças armadas timorenses, formadas após a independência, só abandonou a carreira militar em outubro, para disputar as eleições e apareceu em campanha envergando o "uniforme militar".

A página australiana do grupo Sky News compara como Ruak puxou dos seus galões militares durante a campanha eleitoral, enquanto Francisco "Lu Olo" Guterres, o outro candidato que passou à segunda volta, também ele ex-guerrilheiro, tentou esvanecer essa imagem, aparecendo de fato e gravata.

No jornal indonésio Jacarta Globe, Meagan Weymes recorda como Ruak, quando era jovem, "sonhava viajar pelo mundo". A invasão indonésia, em 1975, "abalou essa ambição" e, desde então, Ruak nunca tirou o uniforme militar.

A sua ligação às forças armadas é tão forte, recorda a jornalista, que propôs, se fosse eleito, introduzir o serviço militar obrigatório, apresentando-o como "uma das soluções" para criar emprego para os jovens.

O jornal The Australian noticia apenas, através do seu correspondente em Jacarta, Peter Alford, que Taur Matan Ruak deverá assumir a presidência timorense a 19 de maio e pouco depois fazer o que "é provavelmente o ato mais importante do seu mandato" -- nomear o governo para os próximos cinco anos.

Num artigo de opinião no jornal australiano Sidney Morning Herald, Damien Kingsbury, que foi observador às eleições presidenciais em Timor, sustenta que a votação foi "um teste à estabilidade" do país.

Reconhecendo que "a democracia política não é, nem deve ser, acerca de um indivíduo em particular", o comentador reconhece que "há poucas dúvidas" sobre o "caráter carismático" de Xanana Gusmão. E atribui, por isso, a vitória de Ruak ao "apoio e organização" do primeiro-ministro.

No jornal australiano Brisbane Times, Michael Bachelard vai mais longe e antecipa que "a Austrália pode esperar uma linha mais agressiva do novo Presidente timorense acerca das fronteiras marítimas e dos lucros do petróleo".

SBR.

Lusa/fim.

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